sexta-feira, 16 de maio de 2014

Nossas desculpas / Our apologies

Prezados amigos, 

Queremos pedir mil desculpas a todos que fizeram comentários. Por não estarmos familiarizados com as configurações, devemos  ter perdido todos os comentários até a data de hoje. Seu comentário é muito importante para nós. Se você fez algum comentário, por favor, envie-o novamente e aceite nossas desculpas. 
Um abraço carinhoso a todos!

 Dear friends, 

 Our  apologies for those who made comments. Since we are not familiar with the settings, we may have lost all the comments made so far. Your comment is really important for  us. If you made any comment, please, sent it again and accept our apologies! 
A kind hug!

 Gilson and Hylda

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Cara Roxo que Come Gente (na periferia de Santo André)




Parece que a moda hoje em dia é “accent reduction”. É aí que a porca torce o rabo: eles quem, sotaque de quem?
Estava interpretando um grupo de estrangeiros num restaurante; eu e mais dois amigos colegas intérpretes, os dois excelentes profissionais: um americano e o outro brasileiro, com um perfeito inglês britânico. 
            Estávamos falando sobre o modo de falar, gesticular e sotaques. Eu queria saber se meu inglês era americano ou britânico, e eles me responderam: ah, Gilson, seu inglês é brasileiro!
            Outro americano nos disse que ele era de Arizona, mas ele não tinha sotaque do Arizona porque havia se mudado para um estado no norte, e falar com sotaque sulista lá soaria como uma pessoa “dumb”.
Meu amigo intérprete, com sotaque britânico, disse que na própria Inglaterra havia esse tipo de preconceito.
Eu disse:
 “Mas, se mesmo lá  alguém de outro lugar é considerado idiota por ter um sotaque diferente, e se for um estrangeiro, então?"
Outra Americana, ouvindo a conversa, me tranquilizou e disse:
“Os americanos adoram sotaque britânico e sotaque brasileiro”.
 Não sei se ela quis ser política e amainar os ânimos, mas ela parece ter dito isso com convicção.
 Perguntei por que gostavam desses sotaques. Ela respondeu: “o sotaque britânico tem um ar de aristocracia e o sotaque brasileiro é sexy”.
Pensei sobre isso e descobri que estamos falando mal dos outros, mas fazemos o mesmo aqui mesmo no Brasil. Você já ouviu alguém apresentar um telejornal com sotaque nordestino? Já viu algum apresentador de algum programa de âmbito nacional com um sotaque gaúcho?
Talvez, sem a televisão e os meios de comunicação modernos as diferenças regionais seriam bem mais diferentes ainda.
Num mesmo país antigo, entre um pequeno povoado e outro, onde não havia  meios de comunicação, as diferenças eram maiores. O preconceito contra pessoas com sotaque diferente já existia no tempo de Cristo. Quando viram São Pedro por perto, suspeitaram que ele fosse um dos discípulos por causa de seu sotaque galileu.
Estava pensando sobre  um exemplo para expressar o que estou pensando e logo me veio à mente quatro pessoas famosas provenientes de Santo Andre: Adoniram Barbosa, Danilo Gentili, Dani Calabresa e Lucélia Santos.
Todos são de Santo André, ou moraram aqui, mas qual é o sotaque característico de Santo André? Como as pessoas falam por aqui? Parece que há sotaques bem diferentes entre essas pessoas famosas.
Não, a gente ouve esses tipos de sotaque bem aqui em Santo André mesmo.
Vamos começar com Adoniram Barbosa, que, aliás, parece ter entendido muito bem esse aspecto do sotaque. Ele foi muito criticado por compor seus sambas do modo como o povo falava. A elite intelectual paulistana ficava horrorizada com aquele “português macarrônico e sofrível”, mas era assim que o povo falava.
Meu avô era filho de italianos e conhecia o Adoniram quando ele morava em Santo André. Ele falava com aquele sotaque dos sambas do Adoniram.
Minha mãe, uma geração depois, fala bem parecido com a Dani Calabresa, que, embora mais nova que minha mãe, deve ser neta ou bisneta de italianos.
Minha geração fala de modo mais parecido com o Danilo Gentili.
A Lucélia Santos tinha um sotaque mais padronizado, mais parecido com um português padrão, talvez por ser uma atriz de abrangência nacional e internacional.
Nosso jantar com os estrangeiros continuou. Mudamos a conversa e eu dizia dos meus hobbies: rock antigo (não sou tão velho assim, mas adoro rocks antigos e músicas dos anos 50, 60).
A americana deu um salto, arregalou os olhos e disse:
“Eu também adoro rock antigo”
 Ficamos entusiasmados. Depois de umas taças de vinho e algumas caipirinhas estávamos cantando:  “Purple People Eater, please don’t eat me”, na mesa do restaurante.
 Na pressa eu traduzi como Comedor de Gente Roxa, mas meus colegas intérpretes me corrigiram: “Comedor Roxo de Gente...”
Minha interlocutora americana veio ao meu socorro e disse:
“Quando Sheb Wooley fez esse rock, em 1958, mesmo os locutores se confundiam e não sabiam se era o monstrinho que era roxo e comia gente ou se ele é que gostava de comer gente roxa, por isso que até hoje o monstrinho aparece pintado de roxo”.
Mesmo assim é estranho. “O que quer dizer isso?” perguntei para a senhora americana?
Ela respondeu:
“Era uma lenda urbana, o Purpble People Eater” era um monstrinho de voz gutural que assustava as crianças que não se comportavam bem”.
Eu tinha tentado traduzir esse rock há alguns meses para um amigo do Skype. Estava encontrando certa dificuldade não tanto com a tradução, mas de expressar com mais fidelidade o que estava por trás da letra fria. Como traduzir um personagem de uma lenda urbana dos anos 50 do sul dos Estados Unidos?
 Comecei pesquisando um pouco mais e descobri que o tal monstrinho era algo como o “homem do saco”, o “bicho papão”, ou a mulher loira, com algodão na boca, que aparecia nos banheiros das escolas, ou a própria Cuca.
Começa a refletir uma ética WASP, a ética do trabalho duro. Todos deveriam odiar o Purple People Eater porque ele não era dado ao trabalho, era moralmente moroso, preguiçoso e odiava as pessoas. No fundo era meio devasso.
Nesse período, nos Estados Unidos, pela primeira vez os adolescentes estavam tendo poder de consumo e começaram a se rebelar contra certos valores tradicionais.
Enfim, como traduzir uma letra dos anos 50, de um compositor WASP de Oklahoma, para um adolescente da periferia de Santo André de 2014, que já fala diferente de Adoniram Barbosa, Dani Calabresa, Danilo Gentili e Lucélia Santos?
Meu sobrinho, de uma geração mais eclética, com mais misturas, mais migrantes nordestinos e menos italianos, quis saber o que eu estava ouvindo.
Tentei explicar, disse que era um rock antigo muito engraçado e comecei a traduzir. Ele não ficou muito interessando e foi ouvir funk.
Então tive a ideia de traduzir no jeito que ele falada, ou seja, do jeito como a geração mais nova de andreenses fala, mais especificamente, na periferia de Santo Andre. Depois de ler pra ele a nova tradução, ele me disse:

“Tio, isso parece funk”, e saiu rindo muito da estória, que você pode ver logo abaixo,  depois do vídeo:


            

Bem, eu vi o bagulho vindo do céu.
Tinha o um chifre enorme e um olhão.
Me deu um cagaço e eu disse: “caraca, mano,
Acho que é o cara roxo que come gente!”

Era o cara roxo que come gente,  que tinha um olho só, um chifre só e que vinha voando.
Mó bizarro, mano,
Um olho só!

Bom, o bicho aterrissou e ficou brilhando numa árvore.
Daí eu disse: “seu Cara Roxo que come gente, num me come”.
E ele disse assim, com uma voz bem ríspida:
"Suave, nem ia rolar de eu te comer porque você é muito tosco.”

“Era um comedor roxo de gente que tinha um olho só, um chifre só e que vinha voando.
Mó bizarro, cara,
Um chifre só”.
Dai eu falei: “o, seu Cara Roxo que come gente, o que tá pegando?”
Ele disse: “é comer gente roxa e isso é da hora,
Mas num fui pra isso que eu vim pra terra não.
É que eu queria arranjar um trampo numa banda de rock!”

Putz, que alívio! Rock and roll, cara roxo que come gente e voa…
Pé de pombo, estropiado, cara roxo que come gente...
Eu disse para ele: “Veio, a galera aqui usa shortinho cavadão,
Que da hora, uau!”

Daí, o cara pulou da árvore e começou a brilhar no chão;
Começou a dançar rock e agitar.
Era uma música aloprada com uma melodia irada. 


"Wop bop a lula wop bam boom"

Putz, que alívio! Rock and roll, cara roxo que come gente e voa
Pé de pombo, estropiado.
Eu gosto de shortinho cavadão, seu Cara Roxo que come gente
Que da hora,  seu Cara Roxo que come gente!”

Bom, dai ele vazou, tá ligado?
E num é que o cara apareceu  na TV ontem  à noite?
Ele tava tocando  e agitando a galera,
Tocando rock pelo chifre   que ele tinha na cabeça.


Tequila


Gilson Marcon de Souza




segunda-feira, 12 de maio de 2014

São Jerônimo e os Ossos do Ofício

Hoje eu queria continuar falando sobre tradução. Queria, queria muito! Queria falar sobre ferramentas de trabalho, preços, modalidades de tradução. Queria falar algo sobre tradução para legendas e dublagem. Hoje eu queria falar sobre tradutores famosos. Pensei em falar sobre São Jerônimo, mas vou ter de desviar minha atenção para um assunto muito desagradável.
Não queria falar sobre isso logo no começo dos posts. Infelizmente, vou ter de abordar este assunto e espero não jogar água fria no entusiasmo daqueles que estavam pensando em ser tradutor ou intérprete.
No nosso primeiro post, disse que a tradução era uma arte... uma arte bela, sublime e antiga... mas hoje serei obrigado a falar dos ossos do ofício, cuja expressão correspondente em inglês, the seamy side of the job, ou seja, o lado sórdido do trabalho, expressa com mais fidelidade o que estou sentindo. Hoje vou dispensar todas as formalidades, todas as regras de gramáticas e, desde já, rogo pela paciência dos que pararem para ler.
Na verdade, eu queria mesmo encher esta página de palavrões, mas isto não cairia bem para um profissional da palavra. Quem sabe, mais tarde, eu não despeje todos esses palavrões numa rodinha de conversa informal, de preferência tomando alguma cerveja.
Preciso fazer algo sobre isso. Pensei até em fazer como o cabeleireiro do rei Midas: enfiar a cabeça num buraco bem fundo para não espalhar as notícias, mas acho que a ideia da cerveja é bem melhor.
Estou me referindo ao episódio em que Midas decidiu servir Pã, aquele ser grotesco, de meter medo, que assombrava as pessoas nas florestas. Ele era um sátiro, um ser híbrido meio bode, meio gente... cabeça de homem e corpo de bode. Menos mal, pois até hoje ainda existem pessoas híbridas, meio mulher, meio cadela, meio homem, meio asno (existem muitos sim, eu juro que hoje mesmo já vi vários deles).

Enfim, voltemos ao mito: Depois de haver ficado enfastiado com o dom que Baco lhe concedera de fazer tudo virar ouro, Midas decidiu servir outra divindade: Pã. Pã, além de ser o deus do ovo e dos bosques, tocava uma flautinha ridícula e irritante e era dado a assustar pessoas na floresta. Mesmo assim, Midas decidiu segui-lo e, depois do duelo musical com Apolo, arbitrado por Timolo, foi reclamar com este sobre a decisão injusta, a seu ver, de ter escolhido  Apolo (o deus da arte, da poesia, da literatura) em detrimento de Pã. Somente Midas escolhera Pã.

Para resumir, depois de Apolo haver sido escolhido o autor da melhor música, o castigo de Midas foi desenvolver duas enormes orelhas de burro (até que podia ser um bom castigo para quem tem mau gosto musical).
Midas ficou muito indignado com o par de orelhas de burro e as escondia com um turbante. Jurou de pés juntos que mataria quem quer que revelasse esse segredo até então guardado por ele próprio  e por seu cabeleireiro.
Depois de travar uma luta intestina entre guardar o “babado forte” e morrer, seu cabeleireiro teve uma ideia inusitada:  cavar um buraco no chão e gritar dentro dele a plenos pulmões tudo o que sabia sobre as orelhas de burro do rei Midas. Nesse processo catártico, não só economizaria com um analista, como também se livraria do desejo enorme de colocar a boca no trombone.
O resultado não podia ter sido mais desastroso: uma versão diz que um junco escondidinho perto do buraco ouviu tudo e se encarregou de espalhar o caso. Outra versão diz que quem ouviu tudo e não se poupou de abafar o caso fora Zéfiro, aquele vento fofoqueiro que, numa outra ocasião, também já quis melar o caso amoroso do próprio Apolo com Jacinto, mas essa é outra estória...
O que está me deixando indignado é o seguinte: Ontem, um amigo muito querido, lutando para pagar seus estudos, estava muito contente por estar fazendo uma versão de um texto para uma empresa de outro estado. Como eu não tenho um buraco para gritar,  achei que meu blog poderia ser um bom substituto (se bem que eu  não faria questão alguma se um junco ou um vento qualquer espalhasse o que eu ouvi e li hoje). Só guardo segredo mesmo por consideração ao meu jovem amigo tradutor. Este sim de caráter ilibado e ética irretocável.
Não vou citar nomes, nem empresa, nem a procedência desse episódio tão lamentável e tão abjeto a pedido dele.
Ontem, meu amigo estava todo animado: havia feito uma versão primorosa de um texto. Estava  contente porque aquela “graninha” viria bem a calhar para ajudar no pagamento de sua faculdade. Fiz umas pequenas sugestões e perguntei quanto ele iria cobrar. Ele me disse o preço e eu respondi que era a metade do preço da tabela sugerido pelo Sindicato dos Tradutores. Humildemente, disse ele que estava começando e que queria cobrar menos para que o cliente conhecesse o seu trabalho.
Meu amigo estava muito confiante, mas se mostrou meio temeroso sobre o pagamento.
Eu disse a ele para ficar tranquilo, pois é mais difícil achar um profissional que faça versão do que tradução, e que seu cliente, sabedor deste fato, e sendo honesto, faria de tudo para não perder o profissional tão bom como ele.
Como eu estava enganado! Mesmo depois de anos de tarimba fui tão ingênuo!
Hoje de manhã, meu amigo me informou que a secretária da dona fulana disse que ela não aprovou a tradução (dois ou três parágrafos), porque os termos técnicos estavam errados.
Uma vez aconteceu algo parecido comigo. No meu caso não disseram nada sobre não pagar, mas queriam me alertar sobre a tradução errada que, segundo eles, eu havia feito.
Depois de sofrer algum tempo com esse  tipo de insinuação, eu comecei a insistir para que mostrassem o erro.
“Ah, num lembro bem agora, mas eu vou ver depois...”
“E aí, você já viu o erro?”
Depois de tento insistir, vieram com um texto todo rabiscado de caneta vermelha, quase que o esfregando na minha cara.
Refutei e repeli cada erro e disse que, se desejassem esclarecer alguma dúvida, poderíamos contar com o auxílio do Sindicato dos Tradutores.          
Não disseram mais nada.
Pensei que estaria livre desse tipo de infortúnio para poder me dedicar à revisão de um texto enorme de cerca de quatrocentas páginas, que eu havia interrompido, para dar atenção a essa pendenga.
Eu já estava muito estressado. De repete o telefone toca...
“Alô, então, viu, você tinha pedido pra gente se sentir livre para mostrar um erro, né?”
“Sim, pois não”.
“Então, é que você disse ‘o saco estava selado’, e o certo era ‘o saco estava lacrado’”.
Desisti do cliente.
No caso do meu amigo, não vou dizer o que acharam de errado para, inadvertidamente, não denunciar  o santo e ficar somente com o milagre, mas é algo como trocar seis por meia dúzia ou o velho truque de trocar por outro sinônimo.
Grande parte disso é pura desonestidade e não encontro um termo melhor para isso do que “safadeza”.
Mas pensei melhor, e no fundo, no fundo, eu sempre vejo algo por trás disso. Algo com que todo artista deve tomar cuidado. Não tem muito a ver com o aspecto financeiro, mas com a inveja...
Parece que quando uma pessoa talentosa  começa a despontar, logo vem um invejoso de plantão para tentar rebaixá-la.
Se você for uma pessoa medíocre, vai ter uma vida calma e sossegada, mas se for um bom cantor, dançarino, pintor, escritor, tradutor, intérprete,  ou mesmo se dominar bem outro idioma, cuidado com a inveja.
Essa pessoa que não quis pagar por três parágrafos de uma versão, que, se de fato soubesse verter para o inglês, teria  ela mesmo se disposto a fazer, deve ter ido dormir se mordendo de inveja,  mas não sem antes querer pisar no texto primoroso do meu jovem amigo tradutor, a quem quero dedicar este texto e encorajá-lo a não desistir. Não só a ele, como  a todos os jovens tradutores que estão iniciando suas carreiras.
No fundo mesmo, eu acho que a distinta senhora deve dever ter se apropriado da versão com a as duas mãos e dado essa desculpa tão esfarrapada e depois deve ter dito que ela mesma quem fez.
Eu fiquei pensando e não sei o que faria.
O que vocês acham que a gente deve fazer com um “cliente” desses?
Podem  usar o espaço para comentários do meu blog para servir de buraco e gritarem à vontade.
Como eu não tenho um buraco-confessor para enfiar a cabeça, vou usar meu blog para desabafar e meditar um pouco nas palavras de São Jerônimo, sobre quem gostaria de continuar falando  numa outra oportunidade:

“Aprendi a Sabedoria sem maldade e reparto-a sem inveja”                                                                                       Sb 7, 12-34 

                                                          Gilson Marcon  de Souza
                                                                                               amazon.com/author/gilsonsouza

domingo, 11 de maio de 2014

Às Mães


                                                
  Hylda Marcon de Souza*


*  Hylda Marcon de Souza é casada, mãe de três filhos; tem cinco netos e três bisnetos.           
    Atualmente, vive em sua chácara em Santo André, onde se dedica a artesanatos, poesias e 
  pinturas. Natural de Pedreira, São Paulo, busca inspiração para os seus trabalhos em sua  chácara. Neta de italianos, "vó Hyldinha" ainda mantém a tradição de "mãe italiana" e quer a família toda sempre por perto, de preferência ao redor de uma enorme travessa de polenta com frango, de saborear um bom vinho e cantarolar sambas do Adoniram Barbosa.

P.S Vó Hyldinha  também iniciou uma publicação de uma série de livros sobre poesia é minha mãe e companheira na arte de escrever e também colaboradora permanente do "nosso" blog. 

                                                                                                                    amazon.com/author/hyldasouza


quinta-feira, 8 de maio de 2014

O Tradutor é um Leva-e-traz



Desde os tempos mais remotos é possível encontrar relatos de traduções, tradutores e intérpretes. Há relatos de intérpretes no Egito, China, Babilônia, Grécia, índia...
Foram encontradas traduções do texto mais antigo de que se tem notícia, a Epopeia de Gilgamesh, com porções traduzidas para outras línguas asiáticas.
Você já pensou na importância dos tradutores e intérpretes? Já pensou como seria o mundo sem eles?
Sem os tradutores não conheceríamos a história, sem eles não saberíamos o significado da Pedra da Roseta, não conheceríamos os mistérios das escritas antigas dos sumérios, babilônios e egípcios, não nos deliciaríamos com os textos clássicos dos filósofos, (que, aliás, foram bem preservados pelos tradutores árabes), não teríamos acesso aos textos de Confúcio e aos escritos sapiências do oriente.
Graças ao padre Anchieta, dedicado tradutor, os brasileiros podemos conhecer mais sobre os nossos índios e suas línguas e cultura (talvez seja esse o seu maior milagre).
Grandes teólogos, como São Jerônimo - tradutor da Bíblia para o latim e patrono das secretárias e tradutores - e o próprio Martinho Lutero, foram antes de tudo, exímios tradutores.
Sem os tradutores não teríamos a Bíblia, não teríamos conhecimento de Buda, não saberíamos o que ensinou Maomé no Al Corão. Sem eles não teríamos sequer tomado conhecimento de Sócrates, Platão e Aristóteles.
Você já começou a imaginar como seria o mundo sem eles? Certamente seria um mundo muito mais obscuro.
A palavra tradução vem do latim, trans (de onde derivam também as palavras transportar, transferir) e do verbo fere (conduzir, levar). Traduzir, então, significa “conduzir para o lado de lá, trazer para o lado de cá”.
Alguns estudiosos acreditam que a palavra em inglês para balsa (ferry-boat) provém desse verbo latino, outros, no entanto, fornecem outras origens. De qualquer maneira, a analogia com uma balsa é perfeita para ilustrar o ofício do tradutor: o que transporta, transfere, conduz de um lado para outro, o que leva e traz, no sentido mais puro da expressão.
Algumas traduções foram tão importantes que são citadas e utilizadas até hoje, como por exemplo, a versão da Bíblia hebraica, conhecida como Septuaginta, traduzida para o grego por 72 eminentes rabinos tradutores judeus e utilizada ainda no tempo de Cristo pelo próprio apóstolo Paulo que, Justiça seja feita, mesmo que por inferência, deve ter sido ele mesmo um notável tradutor.
 O famoso discurso desse importante expoente do cristianismo perante as autoridades judaicas, proferido em hebraico, evidencia o fato de que ter dispensado um intérprete o qualifica como um deles. Seus interlocutores ficaram impressionados não apenas com seu discurso propriamente, nem com sua oratória, uma vez que ele mal havia começado a falar, mas com a o domínio que ele tinha  de vários idiomas:

“... quando ouviram falar-lhes em língua hebraica, maior silêncio guardaram”.[1]

Numa outra oportunidade, sua habilidade com os idiomas fez com que o próprio governador romano, Festo, em alta voz dissesse:

“...as muitas letras te fazem delirar”.[2]

O grande apóstolo chegou a explicar, em uma de suas cartas, sobre a necessidade de interpretação para que houvesse ordem nos serviços religiosos[3], alertando sobre o caos e a desordem que poderiam sobrevir a uma comunidade humana se as pessoas não pudessem se entender.
O caos gerado pela falta de comunicação é bem ilustrado por outra narrativa bíblica sobre a confusão das línguas no episódio da construção da Torre de Babel.
A tradução do Rei Tiago (conhecida no mundo de fala inglesa como King James Version e utilizada até hoje), é outro exemplo famoso de tradução.
Na área da interpretação, o Julgamento dos nazistas em Nuremberg é exemplo da importância do intérprete nos episódios mais cruciais da comunicação humana. Nesse tão importante episódio da história os intérpretes tiveram de se organizar e criar normas e protocolos de interpretação simultânea que são seguidos até hoje, sobretudo em esferas internacionais da mais alta importância como a própria ONU.
Sem o trabalho árduo desses intérpretes simultâneos,  não diria que o julgamento de Nuremberg teria se arrastado por séculos, diria que ele simplesmente não poderia ter ocorrido.
A tradução da Pedra da Roseta fez com que Champollion pudesse decifrar os hieróglifos e estabelecer as bases para a tradução dos textos egípcios.
Se a importância do tradutor, no que tange a textos antigos, é um dos legados mais importantes para a humanidade, hoje em dia seu valor em nada decai. Com a revolução das comunicações, num momento em que a cada quinze minutos uma profusão de textos, comparada em volume a toda a literatura armazenada na Biblioteca do Congresso americano, é produzida, a necessidade de tradutores e intérpretes nunca foi tão premente.
O tradutor e o intérprete estão por trás dos eventos mais importantes do dia-a-dia, traduzindo a notícia que você leu hoje, o manual do seu forno de micro-ondas, do seu smart phone, do software que você utiliza para trabalhar, dos seus livros e filmes prediletos...
O tradutor e o intérprete atuam em diversos campos, desde tribunais e delegacias de polícia a hospitais, desde traduções jurídicas até ao manual de equipamentos e maquinários.
Antes mesmo de ter lido a famosa definição de Terêncio, de que a tradução era uma arte, eu já me havia convencido disso. A enciclopédia on-line, Wikipédia[4], em sua versão inglesa, define o papel do tradutor, como

“alguém que transporta valores entre culturas”

e acrescenta que

 “se a tradução for uma arte, é uma arte difícil”.

Por ser uma arte, comparada com a arte de um ator, pintor, um tradutor não precisa ter passado por uma faculdade para exercê-la, assim como é o caso de um cantor, músico  ou escritor, mas eu devo concordar firmemente que estudar é o caminho mais curto para burilar o talento do tradutor e suas habilidades.
 Sem instrução o tradutor é como uma pedra a ser lapidada. Com o tempo ele pode amadurecer e tornar-se um excelente profissional (com o tempo). Mas se ele tiver a oportunidade de aprimorar seus estudos, é evidente que, convivendo com outras pessoas com o mesmo dom, suas habilidades serão refinadas de maneira muito mais célere.
Lamentavelmente, o árduo trabalho do tradutor e do intérprete não é muito bem reconhecido. Por ignorância ou falta de conhecimento, quem sabe no afã de mostrar serviço, em muitas empresas, uma das primeiras decisões de um gestor inexperiente, desejoso de mostrar serviço, é cortar papel de impressora, cafezinho, feriados, aulas de inglês e traduções.
Com todo respeito às pessoas que se esforçaram para aprender outro idioma e, reconhecendo que um profissional deve dominar outra língua, como o inglês, por exemplo,  para comunicar-se com seus colegas estrangeiros, isso de maneira alguma o qualifica para ser um tradutor ou intérprete.
Num nível mais preciso de comunicação, o tradutor e o intérprete são importantes para expor minúcias de negócios, precisão de entendimento, questões intrincadas, as quais somente um profissional bem treinado pode detectar.
Quando uma empresa dispensa os serviços de um tradutor porque “o fulano tem um bom inglês e pode traduzir”, além de estar demonstrando um profundo desrespeito com o próprio funcionário, desviando-o de sua função,  também está demonstrando uma gritante falta de consideração  com profissionais da área de tradução. Desconsiderar os serviços profissionais de um tradutor e intérprete é o exemplo mais clássico de economia de palitos e, com o tempo, uma empresa que se der ao luxo de dispensar esse tipo de trabalho acabará pagando um preço ainda maior.
Parafraseando as palavras de Ignacy Krazisky:

(...tradução …é, de fato, uma arte tanto estimável como difícil.)[5]   Portanto, não é trabalho para qualquer pessoa.

Nossa intenção, neste blog, é de compartilhar experiências, trocar ideias, dar sugestões e mostrar onde aprendemos com erros, além de falar de tradução, poesias e outras estórias.
Finalmente nossa primeira dica: O tradutor não pode ficar desmotivado com os erros, pois são eles uma das maiores fontes de aprendizado nessa profissão.
Como a tradução é uma arte, o tradutor, desde cedo, se sente compelido a exercitá-la.
Se você sente essa compulsão por tradução e deseja se tornar um tradutor, a primeira sugestão é acompanhar outro tradutor mais experiente. Se você deseja ser intérprete, comece a acompanhar estrangeiros e ajudá-los em tarefas mais simples.
Atualmente, com dois grandes eventos esportivos no Brasil: a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas, há uma janela de oportunidade ímpar para aqueles que desejam seguir a carreira de tradutor ou intérprete. Talvez esteja aí a oportunidade de colaborar, mesmo que voluntariamente, para que o Brasil receba bem os estrangeiros e realize um evento memorável, além de aproveitar uma oportunidade sem precedentes para começar a treinar.
Aguarde por mais dicas e sinta-se a vontade para deixar suas sugestões, ideias e comentários no nossoblog.

Sejam bem-vindos e sintam-se acolhidos e abraçados (ainda que virtualmente), pois como disse uma das mais brilhantes mentes brasileiras (e também um tradutor):

“O abraço é a necessidade que temos de levar um pouco dos outros conosco, e acima de tudo de deixar um pouco de nós vivos nos braços do outro”
Ruy Barbosa

Gilson Marcon de Souza é Tradutor e Intérprete e autor de dois livros de expressões idiomáticas:

English - Portuguese Expressions: Plus a Soccer Glossary

Portuguese - English Expressions: Plus a Soccer Glossary